Παρασκευή, 14 Οκτωβρίου 2016

ΝΟΥΝΟ ΖΟΥΝΤΙΣΕ!




NUNO JÚDICE


COMPOSIÇÃO COM GARRAFA E FLORES

A transparência da garrafa passa para o fundo da tela,
onde a luz transporta uma impressão de água. Posso
despejá-la pelo gargalo do poema, e ver como as
palavras ficam limpas da sua opacidade, até se
poder, através delas, olhar as coisas com a sua mais
pura nitidez. Mas é apenas uma garrafa, pousada
no tampo, reduzida à expressão mais simples
das suas vogais e consoantes, de onde tiro uma
elocução líquida até o fundo ficar seco. Vazia,
é uma peça decorativa que posso encher de
argumentos, como plantas, para que os ramos
da frase se abram sobre a lógica da mesa. O
vidro sobrevive; e só a lógica, que me obrigou
a substituir a água por flores de retórica,
murcha de encontro à parede, onde a
humidade rasgou a pintura, deixando à vista
o gesso dos advérbios e a madeira podre
das conjunções, num realismo de natureza morta.

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